Um Blog de David Ponte. Contacto: dav_russ@clix.pt.

terça-feira, outubro 31

Proxeneta

Na rua, a sua postura e olhar áspero, fazem adivinhar uma personalidade muito carismática, pelo menos o aspecto intelectual era a característica que nela mais se acentuava.
Em casa, esta personagem tornava-se frágil, de tal forma que o seu carisma ficcional, quebrava enquanto a sua vagina chorava depois da sua usual masturbação. Nesse momento, esta figura percebia que a sua única forma de poder, era sobre si mesma. Era o poder sobre as suas mãos, que lhe retribuíam com prazer.

[David Ponte]

sábado, julho 1

And Death Shall Have No Dominion

And death shall have no dominion.
Dead men naked they shall be one
Whith the man in the wind and west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way;
Strapped to a wheel, yet they shall snap in two,
And the unicorn evils run them throught;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characteres hammer though daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.

Dylan Thomas

quinta-feira, junho 1

Casiwatt decidiu naquele minuto tomar uma decisão vital para a continuidade da sua vida. Definiu que como forma de protesto ao facto de não ser olhado por qualquer mulher, iria suspender a respiração. Até voltar a sentir a melifluidade de uns olhos femininos a tocarem o seu corpo frágil.
[David Ponte]

terça-feira, maio 9

Numa tarde de Inverno os olhos dum homem fixavam o horizonte e observavam aquele ponto onde o sol se confunde com o mar. Apesar da chuva, do frio e da bravura do mar, transitava dentro do corpo do homem uma vontade enorme de nadar. Aquele pequeno homem queria desafiar o grande oceano. Sem conseguir segurar mais dentro de si aquela determinação de nadar, o homem correu para o mar e começou a nadar, uma ou duas horas passaram e o homem continuava apesar do enorme cansaço aquela maratona sem fim. Sem mais forças o homem parou, e sorriu, era como se aquele pequeno homem quisesse desafiar a brutal força do oceano que agora o dominava, e que sem dispor uma palavra ou mesmo um pequeno sorriso, engoliu aquele pequeno homem que eu desconheço o nome, apenas sei que tinha vontade de nadar.
[David Ponte]

segunda-feira, maio 8

Passavam dois minutos das nove horas da manhã. Dois minutos apenas. Um estrondo empurra violentamente um corpo já cadáver contra o solo. Sobre a cabeça de Ben Alof repousa uma arma. Uma arma. Que apesar de defunta a sua mão direita ainda segura.

[David Ponte]

O facto de Ben Alof possuir domínio sobre a sua mão direita, torna-o feliz. Com ela. Ben Alof mantém dois tipos de relação, um de prazer outro de genialidade. Ela é a causadora da sua alegria e o rosto da sua humilhação.

[David Ponte]

A mão direita de Ben Alof

Saciado o desejo sexual. Ben Alof olha a sua mão direita e repara que ela é o rosto da sua humilhação ao mesmo tempo que representa o seu único e maior prazer. O prazer sexual solitário.

[David Ponte]

quinta-feira, maio 4

O poeta criava insaciavelmente devaneios na betesga da aldeia, cada figura que entrava era expeditamente espiada e rapidamente moldada na sua cabeça. Na rua o calor cerceava. Na betesga. O poeta bebia cerveja compulsivamente.

[David Ponte]

domingo, abril 23

Outro galo cantaria se em vez de olhares
para a câmara olhasses para mim.
Nunca olhas para mim. E assim parece
que tanto te dá estares comigo ou com outro.
Quando podias olhar para mim, quando
fazes uma pausa para respirar, também
não olhas, limitas-te a fechar os olhos.

E ao voltares depois de teres respirado
alguns segundos, abres então muito os olhos
para veres bem o que estás a fazer
É a minha vez de fechar os meus, nunca
nos olhamos cara a cara e raramente
retine nos meus ouvidos a verdade pura.

Crus e duros são os teus olhos, não esses
que vêem um pormenor do meu penteado,
o horário escolar, a lista das compras,
mas os outros, que até mudam de cor, entretidos
no que sabes fazer tão bem até ao fim.
Crus, porque não me dizem se é só uma técnica
de amor, duros porque parecem pedras.

Desvias-te dos meus olhos para não leres
coisas neles, há uma câmara ao canto
que nos vê a nós dois, tu olhas para a câmara
e não olhas para mim. Não te interessa que isto
nos meus olhos seja riso ou choro, não abres
os teus olhos contra os ossos da minha cara.

Helder Moura Pereira

sábado, fevereiro 4


Giorgio de Chirico (1888-1978)

terça-feira, janeiro 24

Alberto Giacometti (1901 - 1966)


Annette in the Studio

sexta-feira, janeiro 20

Solidão 2

(...)
Naquela manhã de segunda-feira a cidade não registava o movimento habitual, tudo estava calmo, tão calmo, que parecia uma daquelas manhãs de Verão em que todas as pessoas já tinham partido para férias.
Hans acorda, para Hans este é também um dia diferente, hoje não sente só fome como é habitual, o seu estômago também lhe dói. Viaja apressadamente à cozinha, de onde traz dois biscoitos, senta-se junto do seu telefone, e come.
Mesmo depois de comer, Hans sente a dor, a dor contínua, mas agora Hans já não tem fome, tem apenas o seu estômago aborrecido consigo.
Naquele momento Hans sente uma vontade enorme de ir olhar pela janela, mas a tristeza que caiu em si impede-o naquele momento, o seu estômago está revoltado consigo, e dói-lhe muito. Para Hans este sentimento de alguma coisa estar descontente consigo não é novidade, a sua alma à muito desistira de viver, e naquela manhã de primavera, em que tudo parecia diferente, não foi só o estômago de Hans que se revoltou, o seu coração, também decide parar, no momento em que Hans sente vontade, a vontade de ir à janela, na esperança de, ver de novo o casal de namorados que ontem se beijara na rua, mas o seu coração não o deixou. O corpo de Hans repousa agora sem vida junto do seu telefone, o telefone que Hans esperava ouvir tocar antes de morrer.
[David Ponte]

quinta-feira, janeiro 19

Solidão 1

Hans olhava pela última vez da janela de sua casa, um primeiro andar de uma das ruas mais famosas de Paris. Naquele final de tarde de primavera, os olhos de Hans reflectiam, uma rua completa de alegria, as crianças brincam e ao fundo, um casal de namorados olha-se, sorria e beijava-se.
Hans carrega nos olhos tristeza, sai de junto da janela e desloca-se para junto do seu telefone, senta-se e espera que ele toque, Hans espera um som, um som que o tornará certamente mais feliz, mas um som que persiste em não acontecer.
A noite já caiu e Hans permanece ali estático a olhar o seu telefone, Hans sente sono, deita-se no chão, antes de fechar os olhos tenta ver de novo o casal de namorados a beijar-se. Fecha os olhos e delonga que o telefone perfure o silêncio da noite.
(...)
[David Ponte]

segunda-feira, janeiro 16

Peter Paul Rubens


St. Sebastian, c. 1618, by Rubens, Peter Paul (1577 - 1640)

sexta-feira, janeiro 13

Horizonte

Thomas Van, estava apenas a um palmo da fronteira que dividia a vida, a sua própria vida, e a morte. Thomas Van, um dos mais respeitados arquitectos da cidade, tinha à sua frente o potente anfiteatro que ajudara a crescer. Ele, era naquele momento o espectador privilegiado de tão pulcra imagem. Sobre o parapeito da janela da sua casa, no vigésimo segundo andar, estava a segundos de iniciar duas fantásticas viagens, mas, das quais não poderá contar o que realmente sentiu, mesmo assim, Thomas Van. Avançou.

[David Ponte]

quarta-feira, janeiro 11

O palhaço manobrava um revolver no centro do palco. Os espectadores sorriam.
-"Que forma mais estranha de humor!" Pensava Valter Hunter, que se deslocara naquela tarde ao circo com a sua filha.
O palhaço vira-se repentinamente, e corre para a cortina que o manda para junto da solidão dos bastidores, onde a sua face deixa de ser o sentido da alegria, e passa a sentir a tristeza. Pára inesperadamente e aponta o revolver à sua cabeça. À sua própria cabeça. Um... Dois... Três segundos passam, e dispara. À excepção de Valter Hunter todos os espectadores se atiram estupidamente ao chão. O homem cai, sem vida.
[David Ponte]

terça-feira, janeiro 10

Theodor Hunt aproveitara uma pequena distracção dos seus pais, para se aproximar daquele facto que todos os dias, ocupava o mesmo espaço, divergia nele apenas o tamanho e a intensidade. O pequeno Theodor Hunt à muito havia desenvolvido dentro de si uma vontade imensa de explorar aquele pequeno fenómeno, agora, Theodor encontrava-se de frente ao que apesar de desconhecido o atraía, estende o braço na tentativa de tocar, o calor causa-lhe dor, mesmo assim, aquele gesto era à muito uma obsessão, mas, agora descobrira que aquela luz incandescente lhe causa dor, dor essa que ignora. Theodor Hunt, toca e solta um enorme grito, e foge do facto que à pouco o atraía. E chora.
[David Ponte]

quarta-feira, janeiro 4

"De repente Klaus viu o que parecia ser uma claridade intrusa na sua noite individul; mas não. Era um som. Era o som de Alof a tocar. No meio da massa negra. Terá a música luz, perguntou-se Klaus"

Gonçalo M. Tavares, in "Um Homem: Klaus Klump"

O regresso

Algures do mundo onde a imperfeição persiste, depois de; alguma falta de coragem, muitos sorrisos, algumas lágrimas e um ou outro pensamento perverso, hoje por ser para mim um dia simbólico, decido voltar a compor este pequeno lugar. Longe de pensar em intelectualidade, apenas procuro revelar pequenos pensamentos, alguns, com uma ou outra originalidade, outros apenas meros devaneios.

[David Ponte]

domingo, agosto 14

O rosto da coisa

Lembro do quanto me impressionei, quando há duas semanas cheguei a tais paragens, olhei durante minutos ou mesmo horas, aquela perfeição que se expandia sobre o horizonte. Hoje, tento que aquele ponto me passe indiferente, evito olhar sobre ele, para apenas relembrar o quanto já foi belo.
Uma semana depois das chamas ali terem passado, e depois de uma pequena chuva ter refrigerado a terra, a serra da Freita ainda fumega, o cheiro a queimado é ainda intenso e a paisagem contrasta entre um negro tenebroso e um tímido tom verde triste, que suplica ao carrasco a absolvição de tamanho castigo, tão doloroso.
Indiferente a isso, o assassino volta e a uns 2km, da extinta frente de fogo, surge uma tímida linha de fumo, que avisto do outro lado do vale, a meu lado um morador por ali presente grita: “Chamem os bombeiros, se eles chegarem rápido evitam o pior.” Um outro pega no telemóvel e marca 117, após quatro tentativas consecutivas, nenhuma resposta, apenas uma acção, alguém subiu e pousou o telefone, sem uma única palavra pronunciar. O morador muda de estratégia e tenta agora 112, após três tentativas, concluiu que é inútil, nenhuma palavra, nenhuma acção.
Na serra, o fogo deixou de ser tímido.
Pode parecer uma historieta, melhor seria, que fosse.
[David Ponte]