Um Blog de David Ponte. Contacto: dav_russ@clix.pt.

domingo, janeiro 30

O ar complementa-se com o cheiro do teu perfume, uma leve brisa transporta uma colagem de notas musicais sem nexo. Contínuo a caminhar timidamente, ao fundo do corredor, um intenso brilho escapa-se, por entre as brechas de uma porta entreaberta, é o romper da escuridão. Aproximo-me. Empurro a porta, e prontamente sou sugado para o interior de uma sala carregada de almas perdidas. A escuridão invade os meus olhos, o meu corpo paralisa, sinto-me uma carcaça abandonada ao seu destino, o deletério aproxima-se, sinto o seu calor a aquecer as minhas gélidas costas, cai sobre mim e... Sopra violentamente sobre os meus ouvidos, à muito que não tenho os meus sentidos, mas agora, sinto que sou uma indefesa criatura a voar loucamente sobre o tempo, a uma velocidade imaginável, sei disso porque é quase impossível respirar. Quando já sorria à morte. Acordo sobre um chão húmido, pelo orvalho nocturno, é um lugar estranho, à minha frente está um portão enferrujado pelo tempo, Entro, sinto a morte a voar sobre mim, o local é estranho, apenas sinto o cheiro intenso a crisantes. Desfilo sobre um longo passeio de pedra branca, um arrepio começa a sufocar a minha alma quando vejo a transição, de uma película de fotografias estampadas sobre uma pedra que reflecte intensamente o brilho da lua. O cheiro muda, agora é o teu perfume que começa a circular dentro do meu sangue, gelado. Intensifica-se o perfume, sei que me aproximo de ti. Devoro velozmente o passeio desgasto pelo tempo... Paraliso... agora, sinto que estás atrás de mim, viro-me para te ver...
E tu sorris.
[David Ponte]



Isaak Levítan, 1860-1900

sábado, janeiro 29

Democracia a fogo!

Lembro-me daquela figura irreverente, O futre da corte, sorria à anarquia e divertia a democracia.
O feroz, inofensivo, ganhou agora uma maior maturidade, tornou-se perigoso e determinado. As ideologias surgem-nos pelo ar, quem não as souber interpretar contribui ignobilmente para o enfraquecimento da democracia.
Tornava-se engraçado a forma como abordava e abraçava banalmente a integração da sua recém criatura. A criatura cresceu e tornou-se num terrível predador, que se alimenta de democracia, à porta de novas eleições o BE promete novos resultados históricos. É tempo para parar e pensar, a democracia está demasiado ferida e os micróbios podem matá-la.

[David Ponte]

sábado, janeiro 22

O Poder e a Igreja

Em 324 Constantino, muda a capital do seu Império para Oriente, de Roma passou para Bizâncioº, nasceu assim Constantinopla, junto dos grandes centros culturais e económicos da época; Atenas, Tessalónica e Antioquiaºº.
Entre senadores e outros notáveis foram também convidados a povoar a nova capitalººº, dezenas de milhares de habitantes. Para trás Constantino deixou, uma pessoa muito importante, o Bispo de Roma, neste contexto dá-se uma separação histórica entre a Igreja e o Estado, trata-se de um acontecimento com consequências decisivas e benéficas para a humanidade. A partir deste momento e com maior autonomia e com o defracçionamento do Império a Oriente, a igreja floresce, afirma uma independência que lhe possibilita reclamar o manto da liderança espiritual dos povos cristãos, sendo a primeira grande instituição independente da história a desafiar o poder temporal.
Bastaram cinquenta anos após a separação da igreja e do estado, para se dar o primeiro conflito, Teodósio um dos sucessores de Constantino, numa disputa com os Tessalónicosºººº, convida-os a Milão, fora o pretexto para um banquete de sangue, homens, mulheres e crianças foram passados a fio de espada, sensibilizado com o acontecimento Ambrósio, Bispo de Milão, recusa publicamente, dar a comunhão ao Imperador Teodósio que reclamaººººº, este acontecimento sem precedentes, leva a que o homem mais poderoso do mundo de então, acabe vestido de mendigo durante oito meses à porta da catedral de Milão, só assim teve o perdão do Bispo. Este foi apenas o primeiro acontecimento da história, a partir daquele momento a igreja atinge um patamar incomparável de poder. Em 1077, Henrique IV decide desafiar o Papa Gregório VII, formou e marchou com o seu exército, a igreja defende-se como as suas tropas, D. Henrique IV perde a batalha, reza a história que deslocou-se a Canossa, e descalço sobre a neve pediu perdão.
A igreja desenvolveu um império considerável, desde a época medieval, parte dos excedentes produzidos pelo camponês tem como destino, mosteiros, com eles pôde gerir e construir riquezas, também procurou defender os mais carenciados, criando albergarias; (instituições de apoio aos mendigos e aos enfermes), O sucesso da igreja perante o estado provém do desequilíbrio de riqueza existente entre ambos, a igreja gere todos os excedentes, a prioridade de investimento é pouca ou quase nula, por isso tudo é riqueza, parte das suas infra estruturas são erguidas com a riqueza proveniente do estado, é necessário o equilíbrio entre ambos, e o estado precisa da igreja, é ela que doutrina o povo espalhando por ele a retórica, para assim evitar que ele não interfira na progressão e no desenvolvimento não contestando o rei. O estado tem prioridades reconstruir um país e defendê-lo, alimentar e equipar um exército é muito dispendioso, a riqueza é nula, porque a existente é investida. Napoleão dizia apenas recear um homem; o Papa.
O mundo gira estonteantemente, tal como as evoluções nos surgem de minuto para minuto, a igreja mantém-se demasiado conservadora para os tempos modernos, é impensável desenvolver um rejuvenescimento da instituição, devido a isso enfrenta uma grave crise de sucessão, a debilidade e a fraqueza, causada pela doença, pesam sobre João Paulo II, o Pontifex Maximus, ele, o salvador, o redentor do mundo, não apresenta condições de tomar qualquer tipo de decisões ou mesmo desenvolver uma nova dinâmica, formulando uma igreja para o novo século, todavia apenas existe uma solução “a morte”, o afastamento é imperceptível.
notas:
º Bizâncio, Uma velha colónia grega.
ºº Antioquia, Roma era considerada, então, um lugarejo atrasado.
ººº Capital, A prioridade após a fundação ou conquista de um espaço é o seu povoamento para que de imediato a economia seja estimulada.
ºººº Tessalónicos, Tribo Grega
ººººº Reclama, Teodósio apontando antecedentes Bíblicos para se defender, o caso de David.
[David Ponte]



"By the Whirlpool", 1892
by Isaak Levitan (1860-1900)

quarta-feira, janeiro 12

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

[Eugénio de Andrade]

segunda-feira, janeiro 3

Identificação Codificada!

É difícil ainda hoje, devido à falta de fontes e à dificuldade de interpretar as existentes, apontar uma data e um momento concreto para a formação/“aparecimento” de Portugal. Alguns historiadores ou mesmo críticos, apoiam-se em documentos ou acontecimentos para identificar/realizar as suas teses; Alexandre Herculano e Damião Peres, autores da Idade Média, apontam a Batalha de S. Mamede como o momento chave da nossa formação, Marcelo Caetano, data 1140 é deste ano que se conhece o 1º documento onde D. Afonso Henriques é denominado “Rex”, Joaquim Veríssimo Serrão remete para a entrada dos cavaleiros Francos na Península Ibérica a formação do Condado Portucalense por D. Henrique, José Mattoso e Oliveira Marques apontam Três datas determinantes, 1098 (vinda dos Francos), 1129 (Batalha de S. Mamede luta entre duas hegemonias idênticas; “Nobres Galegos X Nobres Portucalenses”, período de indefinição territorial, 1132 (Passagem de Guimarães para Coimbra, união dos dois condados; Portucalense e Coimbra.)
Portugal caminha incerto e os Portugueses procuram a sua identificação, tal como o passado o futuro é “escuro”, e o presente inseguro.

domingo, janeiro 2

Os primeiros raios de sol invadem o meu quarto, uma figura brilhante caminha estonteantemente à minha volta, repentinamente pára, aproxima-se do meu rosto, o brilho é demasiado intenso para conseguir ver a sua cara, mas conheço o seu nome; É Despertar.
[David Ponte]

Um texto a não perder!

A Tristeza II, na Rua da Judiaria.