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sexta-feira, fevereiro 4

A concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

[Vitorino Nemésio]
1901 - 1978

1 Comments:

Blogger Papua said...

Um excelentissimo poeta e escritor açoreano. Agora que me encontro em terras de lava, mais uma vez descubro as palavras e a magia destas ilhas.

11:23 da tarde

 

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