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domingo, agosto 14

O rosto da coisa

Lembro do quanto me impressionei, quando há duas semanas cheguei a tais paragens, olhei durante minutos ou mesmo horas, aquela perfeição que se expandia sobre o horizonte. Hoje, tento que aquele ponto me passe indiferente, evito olhar sobre ele, para apenas relembrar o quanto já foi belo.
Uma semana depois das chamas ali terem passado, e depois de uma pequena chuva ter refrigerado a terra, a serra da Freita ainda fumega, o cheiro a queimado é ainda intenso e a paisagem contrasta entre um negro tenebroso e um tímido tom verde triste, que suplica ao carrasco a absolvição de tamanho castigo, tão doloroso.
Indiferente a isso, o assassino volta e a uns 2km, da extinta frente de fogo, surge uma tímida linha de fumo, que avisto do outro lado do vale, a meu lado um morador por ali presente grita: “Chamem os bombeiros, se eles chegarem rápido evitam o pior.” Um outro pega no telemóvel e marca 117, após quatro tentativas consecutivas, nenhuma resposta, apenas uma acção, alguém subiu e pousou o telefone, sem uma única palavra pronunciar. O morador muda de estratégia e tenta agora 112, após três tentativas, concluiu que é inútil, nenhuma palavra, nenhuma acção.
Na serra, o fogo deixou de ser tímido.
Pode parecer uma historieta, melhor seria, que fosse.
[David Ponte]